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Blog Saúde
8 de Dezembro de 2011

Herança maluca

Uma história real sobre pessoas reais, falando da vida real, das agruras do trabalho na sociedade do trabalho.

A apresentação da SIPAT terminou, quando pouco antes meia noite. As perguntas alongaram a discussão, mas o auditório permanecia lotado e várias pessoas me cercaram. Algumas para perguntar sobre algum assunto mais específico e particular, outros apenas para me cumprimentar.
Eu me sentia bem, talvez ainda contagiado pela energia boa do ambiente. Atendi a todos e quando imaginei que poderia relaxar uma ultima pessoa se aproximou.
Uma garota muito jovem, vestindo uniforme da área da produção me perguntou diretamente: Será que eu estou ficando doente?
Sorri, perguntei seu nome, que ela disse rapidamente e muito seria continuou:
Não consigo mais sair da fábrica. Por mim não ia embora. Fico arrumando uma desculpa para ficar mais aqui. Tudo que me pedem eu faço na hora, porque é um jeito de ficar mais um pouco. Arrumo sempre algo para fazer, alguém que precise de ajuda, não tenho vontade de ir para casa. No fundo não consigo mais separar a vida profissional da vida pessoal.
E continuou falando e olhando direto para mim: em casa não consigo mais fazer nada, não saio, não consigo cozinhar, nem lavar uma peça de roupa. Mesmo cuidar da minha filha está se tornando difícil. Fico o tempo todo querendo voltar para o trabalho, já não tenho amigos, não ligo para mais nada... Será que vou ficar doente, e o que é que eu faço?
Sorri, e devolvi a pergunta: Quantas vidas você tem?
Ela me respondeu surpresa: uma só, claro. E ficou pensativa. 
Sentí que tinha conseguido chegar ao ponto central da questão. Então conversei algum tempo com ela e dei-lhe algumas sugestões. Fazer amigos, criar vínculos, se abrir, olhar nos olhos, passear, sorrir, enfim, viver. Ela se foi mais tranquila depois de falar que se precisar vai me procurar.
Aquela conversa me ocupou todos os pensamentos até adormecer.                                   O trabalho ocupa cada vez mais a vida das pessoas e não sobra tempo para mais nada. Trabalhamos para sobreviver e sobrevivemos apenas para trabalhar e isso vira um vicio, cria uma dependência, é uma doença. Pessoas assim são chamadas de Workaholic que significa trabalhador compulsivo e milhões de jovens estão vivendo esse mesmo drama. A pergunta que faço é:
Que mundo estamos deixando de herança para os nossos filhos?

Dr. Théo de Oliveira é médico, assessor de saúde do SMABC e coordenador do Departamento de Saúde do Trabalhador e Meio Ambiente

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