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1 de Outubro de 2018 | Notícias

Wagner Santana: ´Operário daqui ganha mais por ser mais preparado´

Entrevista concedida ao jornal Diário do Grande ABC, publicada nesta segunda-feira (01/10)

Foto: Adonis Guerra/SMABC

Há 30 anos no sindicalismo e há um ano e dois meses presidindo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, o Wagnão, defende a manutenção das indústrias e dos empregos do setor por meio do diálogo entre sindicato, empresas e governo, e diz que o chamado custo ABC traz mais benefícios do que malefícios à indústria. Sendo o desenvolvimento da região inerente ao do setor automobilístico no País, Wagnão aponta críticas ao programa Rota 2030, dizendo que o projeto antecessor, o Inovar-Auto, trazia melhores condições de desenvolvimento.

Qual o fato mais marcante que vivenciou no sindicato? 

Não tem apenas um fato mais marcante, porque cada momento é uma situação diferente. Nós vivemos, por exemplo, casos de ameaça de fechamento de empresas em que os trabalhadores se mobilizaram, fizeram greve e conseguiram uma vitória. Por exemplo, a Volkswagen já tinha tomado a decisão de se instalar em Goiânia, em Pernambuco, onde hoje está a Fiat. Isso já era decisão tomada pela sede na Alemanha e que nós conseguimos reverter. Então, isso é marcante para aquele momento? Muito marcante. Lembro de caso em que consegui, por meio de ida ao Ministério Público, carta para reverter demissão por justa causa de um companheiro lesionado. Isso, para mim, eu era cipeiro (ou seja, fazia parte da Cipa) na época, foi marcante porque era um colega que estava com filho recém-nascido. Então, não dá para dizer que isso é mais marcante do que aquilo.

Em sua opinião, qual a importância da cadeia automotiva para a economia regional? 

Não há como falar do Grande ABC sem a indústria automobilística. A região nasce por essa proximidade, por estar entre o Porto de Santos e grande centro consumidor, que é a cidade de São Paulo. A indústria automobilística se instala aqui por conta dessa característica e se mantém como única região produtora de automóveis do País por décadas, desenvolvendo todo o entorno por conta disso. O que é interessante é que a Região Metropolitana de São Paulo ou a Capital paulista, que é muito maior do que o Grande ABC, acabou não absorvendo, ou seja, a região não é um apêndice da cidade de São Paulo, não sendo ‘contaminada’ pela Capital. As sete cidades conseguiram se manter como uma região e ter vida própria, culturalmente, regionalmente e politicamente. Por isso, o Grande ABC torna nossa regionalidade muito especial. A quantidade de trabalhadores que se concentraram nessa região, que propiciaram grande movimentos grevistas da década de 1980, fez com que a região surgisse politicamente para o Brasil e, aí, deu uma outra característica, fazendo a região surgir não apenas como o berço da indústria do automóvel, mas também como um polo criador de políticas.

Sabemos que, atualmente, o valor médio da mão de obra do Grande ABC é maior do que a média nacional. Esse número que, para muitos, contribui para elevar o chamado custo ABC, e para outros é sinônimo de excelência do trabalho, se deve em parte à atuação do sindicato? 


Primeiramente, acredito que é por conta da excelência dos nossos trabalhadores por conta da capacitação e do know how adquirido. Temos uma indústria química, que exige especialização muito alta e que boa parte atende à indústria automobilística. Essa, por sua vez, tem que ter um know how no desenvolvimento, na ferramentaria, na produção de componentes para montagem das linhas e para que a fábrica opere. Isso exige muita qualificação e estudo. Não é à toa que o Grande ABC é bem servido de universidades e escolas técnicas. A qualificação dos nossos trabalhadores tem que ser paga de alguma forma, como salário. Aliado a isso, também tem a questão da combatividade do sindicato. Lutamos para que a categoria receba aquilo que merece. O salário que eles (os operários) recebem são cobrados durante as nossas negociações. Achamos que os trabalhadores ganham mais porque merecem e isso dá qualidade de vida melhor, o que entendemos que é a forma de distribuir o ganho que as empresas têm pelo fato de ter mão de obra altamente qualificada.

Quais são os riscos do futuro do setor automotivo no Grande ABC para a categoria? O que temos de mudar, uma vez que as fábricas têm investido cada vez mais em tecnologia e demandam outro tipo de profissional? 

O risco é ficarmos parados no tempo e não buscarmos adequação às novas tecnologias. Na década de 1990, nós fomos atrás de nos aperfeiçoar e compreender o que era o sistema Toyota de produção, por exemplo, que era a grande novidade da época, O sindicato foi atrás para entender o que era esse modelo de produção, que incluía um processo de robotização e discutimos a reestruturação das empresas à luz dessas modificações. O que nós temos agora é o grande desafio da indústria 4.0, que introduz processo de digitalização. O que o sindicato e a indústria têm que fazer em parceria com as universidades é pensar essa nova indústria e como os trabalhadores podem aproveitar isso.

Quais funções continuarão? Quais serão extintas? Quais serão criadas? A substituição deste trabalhador requer requalificá-lo? Parte desses trabalhadores tem capacidade de requalificação e outra não. Aí, o Estado tem papel importante em relação a esses operários, que não podem, simplesmente, ser largados na rua. Quanto à requalificação, quem a fará? O Estado ou as empresas?

O sindicato tem papel importante nesse assunto. Nós queremos discutir quem vem e qual é o perfil desses trabalhadores porque nós queremos e iremos representá-los. Portanto, o movimento sindical, empresas, trabalhadores e poder público estadual e municipal têm que, de alguma forma, interagir para que a região não perca o bonde da história. Caso contrário, vamos estar fadados a assistir ao fechamento das nossas fábricas. Se uma das partes desistir, vamos assistir às empresas modificarem seus modelos de produção sem a nossa presença, fazendo do jeito que querem com o objetivo único de lucrar.

Considerando o risco de a fábrica da Ford em São Bernardo fechar ou sair daqui, dado que todos os modelos de carros estão em Camaçari (Bahia), exceto o New Fiesta, que é, em sua maioria, exportado, como estão as conversas com a montadora? O sindicato tem pleito antigo de trazer mais um modelo de carro para cá, mas não é o que acontece. O que fazer, então? 
Primeiramente, nós não consideramos o risco de a Ford fechar porque ela é empresa histórica na nossa categoria, que começou como Willys e, mais tarde, como Ford Willys. É uma empresa importante, que tem uma rede de fornecedores muito relevante e que precisa ser preservada. Na última conversa que tivemos com ela, nos foi garantido o cumprimento do acordo que fizemos, que prevê a manutenção dos empregos até novembro de 2019, o que nos dá a tranquilidade de um processo de negociação para a vinda de um novo produto. Continuamos acreditando na possibilidade, como aconteceu em outras oportunidades, de sermos vitoriosos. Até porque, a planta de caminhões se sustenta. Não pensamos na hipótese do fechamento.

A publicação oficial do Rota 2030 está sendo ‘empurrada’, sendo que a projeção mais recente é que isso aconteça na primeira quinzena de janeiro de 2019. Quais são os prejuízos desta demora para o setor automotivo da região? 

Não consideramos o Rota 2030 como uma política industrial. Isto porque não incentiva a produção nacional e este é o primeiro ponto que já destrói e joga por água abaixo qualquer argumento contrário a isso. O Inovar-Auto tinha a primazia de obrigar as empresas a produzir localmente, pois 60% do conteúdo de um veículo tinham que ser feitos no Brasil, sem importar a origem a automobilística. O Rota 2030 não traz essa condição. Então, se as peças serão importadas da China, Coreia, Vietnã ou Índia, não importa. O programa é um emaranhado de discussão tributária que não fala em produção. Quando se discute números, percentual tributário e taxação de imposto, não se fala sobre pessoas, sobre emprego, sobre quem vai trabalhar e onde. Essa é a nossa questão. Qualquer lugar do País, isso que é interessante, você vê empresas que nunca imaginou no Brasil. Se você for para o Rio de Janeiro, em Resende, há a Volkswagen e a Nissan. Se você passar por Itatiaia, tem a Land Rover, e quem imaginaria que o País teria a Land Rover produzindo aqui? O Inovar-Auto a trouxe. Outro ponto é que nós conseguimos, a muito custo, colocar a discussão do carro elétrico no Rota 2030, mas o programa acabou prevendo a diminuição do imposto para importação dele. É um absurdo, porque, ao invés de incentivar a produção do veículo elétrico no Brasil, incentivou a importação. Essa lógica está totalmente errada, portanto, para nós, o Rota 2030 não serve para nada.

Quanto ao projeto de apoio à ferramentaria, que prevê devolução de parte do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) ao setor automotivo como incentivo às ferramentarias do Grande ABC, e está no papel há mais de um ano, qual a situação atual? 
Na verdade, ele é um programa que permite que se utilize o crédito de ICMS por conta de uma diferença cobrada nos produtos exportados em relação aos vendidos internamente. Nossa proposta é incentivar um setor extremamente importante, que é a ferramentaria. Ela está na base da construção de equipamentos para produção de veículos. Esse setor vem definhando com o tempo porque eles preferem comprar ferramenta na China, Coreia e outros locais, pois acham que é mais barato ou também porque parte dos acordos que as grandes empresas multinacionais automobilísticas fazem inclui compras de pacotes de produtos para todas as unidades do mundo. Então, a questão da liberação do crédito visa, justamente, incentivar a compra direta de ferramentas produzidas no Brasil. No início de setembro, conseguimos reativar a conversa com o governo de São Paulo para retomar essa discussão. Já existe um modelo acertado entre governo, Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) e movimento sindical, bastando apenas a decisão política para bater o martelo e fazer com que a ferramentaria deslanche novamente.

 

RAIO X
Nome: Wagner Santana
Estado civil: Casado
Idade: 56 anos
Local de nascimento: Santo André
Hobby: Cinema, colecionar miniaturas e objetos inusitados
Local predileto: Minha casa
Livro que recomenda: Por que o Ocidente Venceu, de Victor Davis Hanson
Artista que marcou sua vida: Mário Lago
Profissão: Metalúrgico
Onde trabalha: Volkswagen

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